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Porque as pessoas vêm e vão?
Por carlos menezes

Pedalando pelas rodovias em treinos semanais fico observando a quantidade de pessoas que transitam pelos acostamentos. Pessoas sem nomes e muitas vezes sem rumos, apenas andam sem saber pra onde ir. Andam de uma cidade a outra com todos os pertences acumulados ao longo da vida em um saco jogado nos ombros enquanto caminha ou em um caixote na garupeira de sua bicicleta. Às vezes me pergunto: quem são essas pessoas? Como será a sua história? Será que estão pertos ou longe de casa? O que as levou a deixar seus lares e sair pelo mundo? Qual é a visão que elas têm de mundo? Para onde está indo? Onde elas esperam chegar? Quantas histórias essas vidas reservam. Confesso que essas pessoas sempre intrigaram o meu imaginário. São muitas as perguntas, poucas as hipóteses. Nenhuma resposta. Mas uma coisa tenho como verdade. O ser humano vive em uma constante busca. Essas pessoas poderiam estar em suas casas, vivendo uma vida normal. Mas um dia resolveram sair em busca de algo que lhes faltava. Mas o que seria esse algo? De inicio imagino ser a busca pela felicidade. Penso que buscam um emprego, um amor, um filho, uma vida melhor. Mas por outro lado acredito que possam ter saído apenas com o propósito de se libertar das amarras, da rotina, da mesmice, da vida enfadonha. Saíram em êxodo em busca da terra prometida. Às vezes tento me colocar no pensamento dessas pessoas para tentar entender qual a visão de mundo elas tem. Quem sabe o que as seduz não seja um mundo sem fronteiras, onde cada dia significa a busca pelo alimento e na esperança de encontrar um lugar que as possa acolher e oferecer uma vida melhor próxima daquilo que sonham como modelo de felicidade. Por vezes acredito que enquanto sonhamos em ter um bom emprego e fixar uma residência sejam sinônimos de vida estável, esses andarilhos encontram sua felicidade no prazer de conhecer pessoas e lugares. Em não assistir a cena de repetir a cada manhã com as mesmas pessoas na mesma seqüência de acontecimentos.  Da mesma forma quando viajo de bicicleta em minhas aventuras cicloturisticas me deparo com pessoas, cidades e culturas diferentes e me sinto um andarilho, que em cada lugar que passa leva um pouco de história e deixa um pouco de vida. Fico pensando em analogia com a vida a quantidade de pessoas que já passaram por minha vida: amigos de infância, de escola, do exercito, das peladas de futebol, das aulas de inglês, das viagens, das corridas, da faculdade, da família, os professores, os alunos e tantas outras pessoas que já chegaram e partiram. E volto a pensar na necessidade que as pessoas têm de chegar e partir. Mas porque essas pessoas vêm e vão? Agora parece ser mais simples de responder. As pessoas estão permanentemente em trânsito porque estão vivas e em busca dos seus sonhos. Chegam sutilmente como um espermatozóide que fecunda um óvulo e que aos poucos gesta uma vida, que ao longo dos meses faz parte da vida de uma mulher, mas que para partir desse estágio e entrar na vida, o parto acontece de forma abrupta e violenta. A luz ofuscando os olhos, o ar entrando nos pulmões, os cheiros, as sensações, tudo é novo, e por isso o bebê chora. Mas toda essa dor e sofrimento é o preço que se paga por uma nova vida, uma nova jornada, uma nova esperança. Assim vejo as pessoas chegam em nossas vidas e como em um processo de gestação misturam suas vidas as nossas, se nutrem das nossas vidas, nos enche de alegrias e esperanças e quando menos se espera o parto acontece. Partem às vezes de maneira serena e tranqüila como um parto natural celebrado pela natureza. Às vezes com dor, feridas, cortes e cicatrizes como em uma cesariana e por vezes de maneira agressiva e expulsas como se retiradas com um fórceps. E se quer realmente conhecer uma pessoa, aguarde até que ela tenha de sair de sua vida. Seja seu filho que vai se casar, seu casamento que não deu certo, seu amigo que arrumou outro emprego ou simplesmente aquele que parte porque está enfadado da rotina. No momento em que as pessoas saem de nossas vidas e não mais precisarão de nós, é quando as máscaras caem e as palavras ecoam. Ouça os elogios ou desaforos e entenda que tudo isso sempre esteve ali dentro esperando um momento para ser colocado pra fora. Que por muitas vezes não falou o quanto gosta de você por vergonha e medo de achar que está sendo piegas ou então não falou o monte de palavras agressivas porque se escondeu atrás da covardia de ter de encará-lo no outro dia ou mesmo de ouvir a sua réplica. Mas no momento da partida a certeza de não ter mais outro encontro proporciona que o coração fale sem medo do amanhã. Com isso já vi muitas pessoas serem julgadas e condenadas porque foram julgadas pelo momento sem ser levado em consideração o todo. Histórias bonitas e felizes serem transformadas em feridas e mágoas porque o julgamento imediato avaliou somente a despedida e não longa jornada. Por isso acredito que devemos estar sempre preparados para acordar no meio da noite, jogar as roupas na mala e dar seqüência na viagem. Porque a nossa necessidade de estar em movimento é o que nos mantêm vivo. Um dos meus grandes medo é o de chegar a algum lugar e nunca mais me mexer, por acreditar que não existe mais vida a ser criada, idéia nova a ser pensada, pessoas a serem transformadas.



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