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O vendedor de bicicletasPor Isah Andreoni

Ciclistas ou consumidores?
O vendedor de bicicletas
Quando entramos numa loja, o vendedor se aproxima, e uma expectativa quase que automática aparece. De um lado, nós que, nesse momento, somos os clientes, esperamos que o vendedor nos atenda e acharíamos no mínimo estranho se ele permanecesse parado onde está, como se não estivéssemos ali; enquanto ele, por sua vez, logo se aproxima, esperando que uma venda seja feita. E isso parece tão óbvio que soa no mínimo estranho para um começo de conversa sobre... bicicletas. Fica parecendo que a gente está sem assunto, e então diz qualquer coisa que todo mundo já sabe só pra puxar conversa. Mas é aqui que se esconde o engano do costume e da aparência. Porque é precisamente naquilo que nos parece mais óbvio que as verdades mais simples passam despercebidas, e no final a gente acaba se esquecendo.
Comecemos então pelo mais óbvio. O vendedor. Quem sabe, de uma simples palavra, a gente não acabe conseguindo extrair uma série de informações e reflexões que, tenho certeza, muitos de nós nunca fizemos? O que quero dizer é que, ao chamarmos essa pessoa que nos atende, quando entramos numa loja, de “vendedor”, conscientemente ou não, subentendemos uma porção de idéias, expectativas, visões de mundo que já trazemos a respeito do ato de comprar. Não é apenas o significado de uma palavra que aqui está em jogo, mas nossa relação com os objetos, com as mercadorias, com as informações e as pessoas.
No artigo da semana anterior (Da sociedade de consumo para outras sociedades) eu questionava se nossa dificuldade, enquanto consumidores, seria uma consequência apenas da grande variedade de mercadorias lançadas, disponibilizadas e descartadas a todo momento, e que nos deixam sempre numa posição de dúvida, insegurança e incerteza sobre qual delas escolher. Minha suposição era a de que essa talvez não fosse a razão principal de nossa dificuldade, e também de nossos erros, ao fazermos escolhas e tomarmos decisões de compra; mas que nossa dificuldade se encontra numa espécie de descompasso entre a velocidade de transformação (e portanto de informação) que, por um lado, o mercado nos impôs sem, por outro, nos preparar e nos qualificar com os requisitos que essa velocidade e transformação passam a exigir de nós.
Mas a comédia das situações de consumo em que nos envolvemos, quase que diariamente, não se deve apenas a um desconhecimento de nós mesmos e daquilo que compramos ou desejamos comprar (como argumentei no referido artigo); mas sim a um ambiente no âmbito do qual esse desconhecimento, essa ausência de uma relação mais apurada e habilidosa para com as informações disponíveis se perpetua, reproduz e transforma também com a nossa participação, consentimento, e atitudes.
Tendo focado mais em nossas atitudes, digamos, individuais, agora é preciso lançar luz sobre uma dimensão um pouco maior. Afinal, embora cada decisão que tomamos (como consumidores inclusive) não deixe de ser a decisão de uma só pessoa, precisamos entender que, na verdade, nenhuma decisão, e portanto nenhuma ação, é isolada.
O que quero dizer é que nenhuma causa é isolada; nenhum problema, circunstancial: meu desconhecimento enquanto consumidor, ser humano, seja lá o que for, não é um desconhecimento apenas meu, algo que diz respeito a mim, mas um desconhecimento partilhado. Digo isso, pois normalmente temos dificuldade de nos afastarmos um pouco e vermos nossa vida, e nossos hábitos, crenças, atitudes, enfim, de uma certa distância. Tendemos a crer que a vida é assim mesmo como vivemos, sempre foi e sempre será, sem alternativas; quando na verdade viver da forma que vivemos não passa de uma possibilidade, com a qual concordamos diariamente, por uma simples questão de hábito. Continuamos fazendo, porque nos acostumamos a fazer e, mais do que isso, nos acostumamos a fazer porque “todo mundo” faz.
Consumir de uma forma automática, muitas vezes impulsiva, ou no mínimo levando em conta apenas fatores afetivos, ou não muito mais do que apelos de propaganda que encontram, despertam ou até mesmo inventam desejos em nós, não é a única possibilidade de entendermos e realizarmos o consumo; mas não passa de um consenso bobo, como todo consenso, pelo qual talvez estejamos pagando um preço (não só monetário) alto demais.
Se entendo que aquela pessoa que me atende numa loja - e que se coloca como uma espécie de mediador entre eu, que supostamente consumo, e o objeto que desejo comprar – como um “vendedor”, é porque, querendo ou não, aceito que o seu papel é o de apenas me vender mercadorias. E é aqui que nosso desconhecimento se torna partilhado e consentido. Numa cultura como a nossa, em que o consumo se impôs a tal ponto, que até mesmo a informação e o conhecimento viraram não mais que mercadorias, o “vendedor” não tem a obrigação de fazer nada além lhe vender uma porção de mercadorias das quais você quase sempre não precisa. Quando, na verdade, para que houvesse um consumo consciente e eficiente, a preocupação seria, antes de vender, a de orientar.
O foco muda, percebe? Não é que o vendedor não irá querer lhe vender algo. Ele quer, sim, mas ele quer lhe vender aquilo que, no meio da avalanche ininterrupta de mercadorias, é o mais adequado ao seu caso, às suas expectativas, aos seus desejos, às suas necessidades e possibilidades; e não apenas algo que irá causar um incremento na comissão que ele recebe.
O vendedor já não é um vendedor apenas, a partir do momento em que ele quer lhe vender o melhor para o seu caso; quando ele procura conhecer, que seja minimamente, a sua necessidade, realidade, vontade; e une essa informação que ele vai colhendo, com o conhecimento prévio que ele já possui sobre os produtos disponíveis na loja em que ele trabalha, no ramo do mercado em que ele atua.
Nada está isolado. Se o consumidor padece de um desconhecimento e de uma inabilidade consigo e com o ato de compra é porque, por outro lado, aquele que deveria lhe facilitar o acesso aos produtos padece de um desconhecimento igual, senão maior. Nosso despreparo enquanto consumidores, e enquanto seres inteligentes viajando nas diversas dimensões da informação, que cada vez mais se desdobram e se abrem, é o eco mais do que natural em uma sociedade na qual os participantes atuam de modo tão precário. Se nossa era é mesmo a da informação, como propagam as manchetes, e os anúncios dos gurus das mais diversas áreas (desde a tecnologia e o business até a new age), enquanto consumidores (e vendedores) já estamos ultrapassados há muito tempo.
Aqui não acontecem monólogos. É sempre um jogo de, no mínimo, duas posições que se alimentam. O despreparo de um lado é o mesmo que aparece do outro. Se o mercado não se preocupa em formar vendedores capacitados para atuar com o mínimo de eficiência, envolvimento, e por que não, dignidade, por que se preocuparia em formar cidadãos-consumidores? Por que se preocupar em orientar o cliente, quando basta vender-lhe qualquer coisa que apareça como lucro no caixa ao final do expediente? Time is money, man, e não há tempo pra muita conversa. Qual a vantagem de querer saber qual a sua necessidade enquanto cliente, por exemplo, ao entrar em uma loja de bicicletas, se posso simplesmente lhe trazer a peça mais cara, o último lançamento que, é claro, custa muito mais caro? Querer saber do que você realmente precisa acabaria, na maior parte das vezes, fazendo com que o vendedor lhe indicasse não o último lançamento, mas um equivalente muito mais em conta. E a lógica do mercado, para onde vai? Como lidar com o fluxo de mercadorias, a reposição de estoques, e essas peças recém lançadas que daqui alguns meses, como num passe de mágica, já não são bem isso tudo que agora o vendedor lhe descreve, simplesmente porque, agora sim, lançaram outra melhor?
Que sentido tem pensarmos em uma outra forma de consumo, na qual tanto vendedores, consumidores (e necessariamente produtores) atuem de uma outra forma? Que ciclista não gostaria de, ao precisar comprar uma peça pra sua bike, poder dizer o que precisa/deseja/procura, e não apenas sacar o cartão do bolso, mas trocar uma idéia sobre as opções em que pensou, uma adaptação aqui e ali, uma substituição de um equipamento por outro, outras configurações mais eficientes e prazerosas de sua bike? Que ciclista não gostaria disso: chegar numa bicicletaria e poder simplesmente trazer um ou outro conhecimento que ele já tenha, para inclusive facilitar e melhorar sua compra (e com isso, consequentemente, também o trabalho do vendedor); ou, quando não sabe muito do assunto, poder ser orientado de tal forma que, nesse primeiro contato, já saia com a primeira porção de informações que ele terá a respeito de bikes?
E é coisa rápida, não precisa mais de 10 minutos. Basta uma disposição para ouvir e um conhecimento básico daquilo de que se fala, justamente as duas coisas que faltam à maioria de nós, seja enquanto ciclistas, consumidores ou vendedores de componentes para bicicletas.
Não estou pedindo que os vendedores parem seu serviço pra dar aulas a seus clientes, a ponto de torná-los especialistas. O que reivindico é o direito básico de, como humanos, usarmos nossa inteligência, ao invés de sermos tratados como postes que carregam uma carteira e um cartão de crédito.
O prazer de qualquer atividade que realizemos não resulta apenas de sua execução; mas também do conhecimento que ela pouco à pouco nos traz, mesmo quando não está sendo realizada. Desfruto do prazer de pedalar não apenas quando pedalo, mas também nos minutos que passo descobrindo como minha bike funciona; o que a diferencia de uma outra, e outra, e outra; qual a peculiaridade das peças que a compõem; o que pode e o que precisa ser melhorado nela; que tipos de bicicletas existem por esse mundo afora, quem são os ciclistas, quais as rotas.
O ciclismo, por exemplo, vai muito além de estar em cima de uma bike. São os mapas que trago em minha cabeça, as histórias de pedaladas realizadas e sonhadas, as horas que passo lendo matérias em revistas, estudando e pesquisando na net, recebendo e acrescentando informações em fóruns.
Ciclismo é a percepção que passo a ter acerca do tempo, minha habilidade em calcular distâncias com os olhos, e em medir qualquer referência sem o uso de instrumentos. Minha paixão pelo ciclismo não é só a de um ciclista, mas vai adquirindo outras formas, conforme vou descobrindo em mim, em cima da bicicleta, também um geógrafo, matemático, engenheiro, poeta, treinador e atleta, mecânico, urbanista que planeja e replaneja o trânsito e os traçados, utopista que sonha novas formas, costureiro que emenda roupas rasgadas, enfermeiro que improvisa curativos, fotógrafo em busca da luz, tradutor que inventa idiomas os mais inusitados, nos lugares mais distantes, tudo isso que não sou, mas que, a partir do momento em que pedalo, vou me tornando, por dentro e por fora. Não sou nada disso, e olha só, o fato de gostar de andar de bicicleta foi me transformando nisso tudo, me abrindo essas portas, ampliando referências, me levando a tantas coisas que eu nem imaginava.
Por que insistirmos em reproduzir uma realidade que nos exclui, ou pelo menos nos dificulta, tanto o acesso a essas possibilidades? Por que reduzir o consumo a apenas um de seus momentos, o olho no objeto, a mão na carteira, uma senha, um preço, o gesto da compra? Por que não pensarmos no consumo de uma forma mais ampla, mais enriquecedora não só da perspectiva do dono da fábrica, da loja?... E é uma pena que muitos de nós ainda não sejamos capazes de vislumbrar que, acontecida essa mudança de foco, com o passar do tempo, até mesmo o dono da fábrica e da loja saem ganhando. Porque, num mundo em que o conhecimento circula e a descoberta circula e o prazer circula da forma mais livre, os prazeres, as descobertas e os conhecimentos vão se tornando, cada vez mais, de todo mundo. Nada está isolado.
Isah Andreoni
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